Pilulas Literárias: "Por que Escrevo? I "



"Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias." (Clarice Lispector)

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"Eu vivo à espera de inspiração com uma avidez que não dá descanso. Cheguei mesmo à conclusão de que escrever é a coisa que mais desejo no mundo, mesmo mais que amor." (Clarice Lispector)

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"Escrever é prolongar o tempo, é dividi-lo em partículas de segundos, dando a cada uma delas uma vida insubstituível." (Clarice Lispector)   

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"A poesia nos ajuda a viver porque é fonte de conhecimento e consolação. Há uma misericórdia que me atinge através da poesia, uma compaixão que salva" (Adélia Prado)

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"Poesia e fé buscam palavras. O mundo tem um sentido, uma razão que perpassa tudo o que foi criado, tudo isso, bem ou mal, a serviço de uma unidade final que vive na intuição" (Adélia Prado) 

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"A poesia é tão triste: o  que é bonito enche os olhos de lágrimas"(Adélia Prado)
O que é mais difícil não é escrever muito; é dizer tudo, escrevendo pouco. (Júlio Dantas)


I - Por que escrever poesia?
Armindo Trevisan
 [...]
Escreve-se porque é necessário respirar. No seio de uma comunidade justa, livre, a poesia ajudaria o homem a viver intensamente; numa sociedade consumista, ela ajuda o homem a sobreviver. Já é alguma coisa. Mas, para tanto, importa redescobri-la, remergulhá-la no sangue, no pó, na angústia do tempo presente. O leitor terá que persuadir-se de que sua responsabilidade poética é igual à do autor. Porque o leitor é um poeta, talvez mais puro que o próprio autor, uma vez que este produz seus poemas sob pressão, ao passo que o leitor só pode ler um poema por aspiração. Se ler o poema, há de recriá-lo. Quando professores e críticos compreenderem que a poesia não se analisa, mas deve ser assimilada mediante um esforço árduo, mediante uma decisão, estarão dando um passo em direção ao verdadeiro mundo da poesia. Também os poetas, na medida em que admitirem que a poesia exerce uma função vital, compreenderão que sua linguagem não pode afastar-se demais da via comum. O distanciamento da linguagem só é lícito em termos de necessidade de uma ruptura, posto que não existe palavra sem silêncio. E o silêncio, praticado com alegria, é a verdadeira pátria da palavra.
Epigrama do pássaro
Lêdo Ivo
"Precisamos deixar algo para a posteridade",
disse o poeta, contemplando o gari
que recolhia o lixo da cidade.
E o pássaro que não deixa nenhum canto após a morte
e se limita a ser vida no ar perene
que habita o instante
em silêncio pousou no ramo de uma árvore.

" a gente escreve a partir de uma necessidade de comunicação
e de comunhão com os demais, para denunciar o que dói e compartilhar o que dá alegria.
A gente escreve contra a própria solidão e dos outros.
A gente supõe que a literatura transmite conhecimento e atua sobre a linguagem
e a conduta de quem a recebe; que ajuda a nos conhecermos para nos salvarmos juntos...

A gente escreve, em realidade, para a pessoa com cuja sorte ou má
sorte nos sentimos identificados, os maldormidos, os rebeldes e
os humilhados desta terra, e maioria deles não sabe ler." (Eduardo Galeano)
***  ***
 Eduardo Galeano
nasceu em Montividéo, Uruguai, em 1940.
Escritor e jornalista  famoso nos anos de 19780.
A partir daí, incorporou mais um título: um dos mais importantes escritores
 de sua geração na América Latina, com o lançamento
de As veias abertas da América Latina, em 1972.
Recebeu duas vezes o prêmio Casa das Américas:
 com A canção de nossa gente, em 1975,
e Dias e noites de amor e guerra, em 1978

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"Como escrever não é uma atividade normativa nem científica,
não posso dizer por que nem para que se escreve.
 Posso apenas enumerar as razões pelas quais imagino escrever:

1- por necessidade de prazer que, como se sabe,
não deixa de ser alguma relação com o encantamento erótico;

2 - porque a escrita descentra a fala, o indivíduo,
a pessoa, realiza um trabalho cuja origem é indiscernível;

3 - para pôr em prática um "dom",
satisfazer uma atividade instintiva, marcar uma diferença;

4 - para ser reconhecido, gratificado, amado, contestado, constatado;

5 - para cumprir tarefas ideológicas
 ou contra ideológicas;

6 - para obedecer às injunções de uma tipologia secreta,
de uma distribuição guerreira, de um avaliação permanente;

7 - para satisfazer os amigos, irritar inimigos;

8 - para contribuir para fissurar o sistema simbólico de nossa sociedade;

9 - para produzir sentidos novos, ou seja, forças novas,
apoderar-me das coisas de um modo novo, abalar e modificar a subjugação dos sentidos;

10 - finalmente, como resultado de uma multiplicidade e da contradição deliberadas
 dessas razões, para burlar a idéia, o ídolo, o fetiche da determinação única, da causa
(causalidade e  "boa causa") e credenciar assim o valor superior de uma atividade
 pluralista sem causalidade, finalidade nem generalidade, como o é o próprio texto.

Roland Barthes

Nasceu em 12 de novembro de 1915, em Paris. Escritor, sociólogo, filósofo,
crítico literário, semiólogo e um dos teóricos da escola estruturalista.
Formado em Letras Clássicas, Gramática e Filosofia,
tornou-se um crítico dos conceitos teóricos complexos que circularam
dentro dos centros educativos franceses da década de 1950. 
(Fonte:  Por que escrevo? 
Mistérios da Criação Literária- volume I
organização de José Domingos de Brito. Novera Editora)

Manifesto Ingênuo
Artur da Távola

A poesia começa quando o poeta pensa que acabou o poema.
 O poema não é a poesia.
É somente um dos seus condutores, talvez até o mais aparelhado.
Toda poesia que cede ao poema frustra-se.
Todo poema que cede ao verso, perturba-se.
Todo verso que cede à beleza arrisca-se.
Toda beleza que domine o poeta ameaça-o de não alcançar a poesia.
O poema precisa ser escravo da poesia.
Deve aviltar-se, ser volúvel, hipócrita ou solidário, mas corajoso
 o suficiente para compreender e aceitar o seu lugar de coadjuvante.
Há poetas que começam e acabam seus versos no poema e jamais
 atingem a poesia, mesmo utilizando-se da melhor inspiração e de refinada linguagem.
Poesia, poema, verso e poeta são concomitantes, contraditórios e
conflituosos ao mesmo tempo. Inimigos íntimos que se amam.
A poesia é soberana. O poema e o verso, invejosos, ambicionam
o lugar dela. O poeta é um ser carente, aturdido e lindo, o único com permissão
de levar o verso, o poema e a beleza para o julgamento da poesia.
 Esta, exigente, quase sempre reprova os vários intentos do poeta, embora
jamais o proíba de dar luz ao poema. A poesia sabe que, mesmo quando não alcançada,
 vislumbres do que é podem estar presentes no poema, em alguns ou muitos versos
 ou nos delírios do poeta. Por isso só interfere no seu trabalho para disparar a inspiração.
A poesia é deusa. Verso e poema são anjos: intermediários entre o território
superior e sagrado da poesia; entidades de grande valor transitivo.
 Jamais verdades em si mesmas.
O poeta é o herói mitológico. Nasce do casamento de uma deusa (a poesia),
com um mortal (o poema). É bem-vindo, porque ajuda a quase impossível
compreensão do que é a poesia.
É um ser alado e bendito, amaldiçoado pela dúvida, cujo afã é o verso e
 a finalidade o poema. Alça-se à procura da deusa-poesia.
Esta, somente em alguns casos e por especial concessão olímpica,
se deixa alcançar, desde que o poeta não se embebede com o verso,
com o poema ou consigo mesmo, sobretudo se for talentoso.
Poema e verso jamais podem se arrogar a pretensão de representar
com exclusividade a poesia. São meros condutores que, ao se suporem
representantes da poesia, são por ela punidos.
A poesia é tão superior, que nem da beleza precisa. Esta, em geral,
a disfarça ou atenua. Por mais bem que faça - e faz - a beleza é a ilusão da poesia.
Só vale, quando se serve do poema para tentar atingir a poesia.
 Esta só precisa de som, ritmo e palavra por viver mais próxima da música, que do discurso.
Não é o poeta que escolhe a poesia. Esta o escolhe sem lhe fornecer,
jamais, poderes incondicionais sobre o poema e quase sempre lhe negando
a precisão do verso; às vezes até embebedando-o com notáveis descobertas no idioma.
 E quando, por ser superior, humilha, logo depois se mostra disponível tanto melhor
 quanto mais fácil e desfrutável. Esconde-se onde se revela, chegando às vezes
à humildade de necessitar do poema a quem em seguida desdenha e escarnece.
A única liberdade possível ao poeta é a de buscar a poesia.
Ela quase sempre está onde o poema a oculta ao mesmo tempo em que a proclama.

 







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